|
| |||||||||||||||||
“Um raio de sol alaranjado interrompe a escuridão. Uma sala silenciosa e poeirenta, cortada da corrente do tempo. Um sótão esquecido, cheio de coisas com pó. Bafiento, sem ventilação. Sente-se que não há vida, que não há movimento. A partir desde local solitário e silencioso, o rapaz observa, olhando fixamente para o infinito. Existem crianças jogando futebol lá em baixo, mas ele não é capaz de se juntar a elas. Não existe saída desta sala - a porta está fechada, a janela é demasiado alta para ele. É um prisioneiro da casa do autismo”. As palavras são do livro “Mirror Mind”, um conjunto de ensaios e poemas da autoria de Eric Chen, um jovem singapuriano de 23 anos. Durante 18 anos, esteve perdido no autismo, até encontrar a chave para poder sair da prisão. Está em Macau até meados deste mês para falar da sua experiência, a convite de Patrícia Nolasco (ver caixa). SAIR DO SILÊNCIO. “Tudo em meu redor era como se fosse um sonho”, diz Eric Chen, recordando a infância. “Não tinha consciência das coisas - era como um sonâmbulo a passear pelos locais, sem saber o que se passava”, explica ao JTM. Chen é um caso particular dentro do autismo. Ao contrário da maioria dos autistas, é intelectualmente dotado, dominando campos como a programação informática. O mais espantoso é que está consciente da sua situação. O despertar de Eric Chen aconteceu em Dezembro de 2000, quando leu um artigo na internet sobre autismo. “Essa peça explicou-me todos os sintomas e eu revi-me neles”. Pouco depois, o Autism Resource Center, em Singapura, reconheceu oficialmente a sua situação. Uma detecção tardia, que o levou a passar a infância e adolescência afastado do mundo. Este é um dos dramas do autismo. A perturbação enquadra-se num amplo espectro de comportamentos que, muitas vezes, tornam difícil um diagnóstico preciso. Principalmente em casos como o de Eric, onde a principal manifestação de autismo, o isolamento social, se associava a bons resultados académicos. “Aquilo que me pediam para fazer [na escola] era muito focado na memória e baseado em passos simples”, justifica o rapaz. Curiosamente, foram as boas notas que impediram uma detecção mais precoce do problema. Para os professores, Eric era o “marrão” da turma, que sabia tudo, mas que não se conseguia relacionar com ninguém. “A minha mãe pensava que era apenas ‘lento' a comunicar”, conta o jovem. “Por vezes, treinava-me para falar com ela e responder às suas perguntas de forma concisa”, recorda. UMA VIDA NORMAL. Apesar dos problemas de relacionamento social e comunicação, a descoberta de que possuía autismo permitiu a Eric Chen ultrapassar barreiras. “Quando soube que era autista, senti-me mais livre para me expressar”, refere. “No passado, tendia a ter uma auto-estima muito baixa, culpava-me a mim próprio pela minha situação”, acrescenta. A partir de então, a vida do jovem singapuriano mudou. Obteve um grau académico em Logística e cumpriu o serviço militar normalmente, integrado numa unidade de computação. Quanto à ideia de escrever “Mirror Mind” para contar a sua experiência, surgiu pouco depois de ter saído da tropa. “Após ler muitos livros, decidi que queria escrever algo”, conta. “Escrevi quatro livros que não publiquei - este foi o quinto”, diz Chen, acrescentando que isto respondia a uma necessidade de expressão. “Estava a escrever um livro a cada duas semanas”, revela. “Mirror Mind” surgiu em Setembro do ano passado. “Publiquei-o com as minhas próprias poupanças - pesquisei na internet sobre como editar e publicar um livro”, frisa, orgulhoso. A escrita permitiu também ao singapuriano entrar num segundo nível de redescoberta da sua humanidade. “Quando escrevia uma história, podia sentir os caracteres, sentir os seus desejos, pensamentos e sentimentos”, conta. “Foi então que vi as pessoas e estas começaram a fazer sentido para mim”. A revelação, que surgiu de modo gradual, permitiu a Chen melhorar a qualidade das suas emoções. “Antes, era tudo muito ténue - parecia que estava a usar um par de luvas grossas”, revela. A esta mudança associou-se uma melhor compreensão da necessidade humana de interagir com outro e de descobrir as pessoas. No entanto, o jovem continua a ter dificuldades com o sexo oposto. Questionado sobre namoradas, foge à pergunta, envergonhado por nunca ter tido uma. “Tenho muito medo dos compromissos”, desabafa. EXPLICAR O AUTISMO. Os últimos meses da vida de Eric Chen têm sido a falar da sua experiência como autista. São muitos os pais e familiares que o procuram. “Estão interessados em encontrar alguém que os inspire a continuar a trabalhar com os seus filhos”, diz. Certo é que a evolução do jovem, abandonando o mundo distante do autismo e integrando-se normalmente na sociedade, enfrenta cépticos. Há quem desconfie que Eric não é realmente autista. O singapuriano não se importa. “Por um lado, as pessoas estão à procura de algo que as possa ajudar a perceber e reduzir as consequências. Por outro, se um autista obteve progressos, duvidam”, ironiza. “É um paradoxo”. Curiosamente, Eric Chen tem dificuldades em contactar com outras pessoas portadoras de autismo. “Quem trabalha com autistas precisa de ter muita paciência”, confidencia. “Talvez eu não seja tão bom”, desabafa. NoteEric does not understand Portuguese.
Last modified: Fri, 28 March 2008 Note: This may be only a minor modification (e.g. changing a spelling mistake) |
|||||||||||||||||